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Se existem Damas elas são do Samba

Era noite. Chovia e Ventava. Mesmo assim chegaram para pré-estreia radiantes como sempre. Cada uma com sua beleza, sua força, sua energia e sua luz. 
Entraram cinema adentro docemente silenciosas sem que ninguém percebesse. Sentaram-se bem perto de Dona Ivone Lara só para admira-la um pouquinho mais. Em seus shows estão sempre presentes. Não deixam de ir por nada.
Aguardaram ansiosas pelo início do filme. Curioso ninguém ter percebido tão ilustres presenças femininas. Desconfio que algumas pessoas até sentiram a energia só não se deram conta da sua origem.
Começava a sessão. Encantadas foram se deliciando imagem após imagem. Cantaram bem baixinho. Dançaram timidamente sem sair da cadeira. Choraram de emoção. Aplaudiram com todas as suas forças numa felicidade só. É tanto olhar, tanta força, tanta luz, tanta doçura que elas chegaram a se enxergar na tela. Quanta homenagem. Puro merecimento.
O filme terminava. Era hora de ir embora. As luzes começaram a se acender enquanto elas levantavam. Pararam alguns segundos para contemplar o momento. Sorriram entre si. Não era preciso dizer mais nada. De mãos dadas seguiram seus caminhos com a sensação de missão cumprida. E lá foram elas Nanã, Iemanjá, Oxum e Iansã...


Moniquinha/Monicacompoesia

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Não reconhece seus próprios pecados
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A cidade está só
Oca de afetos
Abandonada dentro dela mesma
Nela habitam seres sem alma
A cidade desastrosamente não se vê
A duras penas não se lê
Ela é inerte
Incapaz de escrever um futuro
Diferente de seu passado e de seu presente
Doente ela é deserta de sonhos e Humanidade
Exala crueldade
Feroz se alimenta de sofrimento e insensibilidade
E mesmo assim morre de fome
Fome de gente
Fome de ser humano
Fome que ela mesma desconhece
Por isso a cidade sem olhos é fria feito um cadáver
Ela não respira
Não reage
Ela apenas transpira intolerância e medo
Sepultada em sua arrogância
Ela é fétida
A cidade na verdade nunca viveu
Sempre morreu de ódio por si mesma
Desde o dia em que nasceu
Do ventre impiedoso da desigualdade
Ela finge que sobrevive
Para o mundo que a acolhe
Cheio de falsas esperanças

Moniquinha/Monicacompoesia

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